Por que ela não tá nem aí pra sua Insurreição//tradução

Por Que Ela Não Tá Nem Aí Pra Sua Insurreição é um texto que fala sobre machismo num contexto específico de Nova Iorque, na cena anarquista insurrecionária da qual a autora faz parte. Ela faz uma crítica sobre como o machismo está presente mesmo neste contexto, pois as mulheres enfrentam a opressão do patriarcado fora, mas também dentro de espaços anarquistas/libertários. Poderíamos dizer espaços supostamente anarquistas e libertários e não estaríamos sendo radicais, apenas sendo coerentes, pois não é possível que nestes espaços o machismo seja aceito, que seja uma opressão praticada como normalidade ou mesmo “apenas” ignorado. Não é possível ignorar o machismo. Isso só acontece porque existe interesse em manter as mulheres sob domínio dos homens. Lendo o texto percebemos que é uma situação análoga as cenas das quais nós também nos encontramos. Boa leitura.

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Tradução de Why she doesn’t give a fuck about your Insurrection

28 de Setembro, Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto!

Desde 1990, quando do 5º Encontro Feminista Latino-americano e Caribenho realizado na Argentina, se definiu esta como a data para lutarmos contra a criminalização do aborto e as punições sofridas pelas mulheres.

Mesma data da lei do Ventre Livre, aprovada em 1870, uma vitória das mulheres negras, onde todas(os) filhas(os) de escravas que nascessem à partir desta data não seriam mais automaticamente escravas(os).

Porém as mulheres negras continuam sendo as mais prejudicadas com a criminalização do aborto, por pertencerem as classes mais baixas, num país onde nada se fez para reparar o enorme impacto da escravidão, onde o racismo é estrutural e define o destino de todas (os). A criminalização do aborto também criminaliza a pobreza, pois geralmente são as mulheres mais pobres que sofrem com práticas perigosas por falta de dinheiro. Isso não significa dizer que não acontece com mulheres das classes mais altas, acontece, pois o aborto é um tabu e é crime para todas as mulheres que acabam muitas vezes pagando com a própria vida.

A aliança do Estado dito laico com a Igreja vem controlando os corpos das mulheres, valorizando mais um conceito de vida metafísico em detrimento da vida de mulheres. Ao se dizerem pró-vida estão na verdade afirmando ser a mulher apenas um aparelho reprodutor para o Estado e a Igreja.

Infelizmente, ao contrário do que esperaríamos, estamos vivenciando um crescente ataque aos poucos direitos que havíamos conquistado e uma estagnação total de novas conquistas. Voltamos praticamente à estaca zero tendo que debater princípios básicos em função de um forte resgate a valores conservadores, moralistas e fundamentalistas. No Brasil, o Estatuto do Nascituro tá resignificando o conceito de estupro, concede absurdamente direitos ao estuprador, e cria brechas para punição mesmo nos poucos casos em que o aborto é permitido no Brasil.

Ter uma presidenta mulher no poder não nos trouxe avanços infelizmente.

Por tudo isso lutamos pela Descriminalização do Aborto, não será a sanção de uma lei que trará direitos e igualdade para as mulheres. Não será uma lei que garantirá o aborto seguro se o próprio sistema de saúde é, quando muito, precário. Chega de mortes de mulheres, chega de obscurantismo religioso impedindo a informação sobre métodos anticoncepcionais principalmente às classes que mais necessitam.

 

 

 

Sobre o Argumento de que o Patriarcado Não Existe

Tem-se falado que o patriarcado não existe, ou de “que não é bem assim”.

Passou a ser relevante dizer que o patriarcado é também culpa das mulheres, quando não ‘principalmente’ culpa das mulheres já que são as mulheres que educam as filhas e filhos de forma machista.

Então é relevante dizer que o patriarcado é culpa das mulheres mesmo antes de reconhecê-lo como realidade massivamente opressora de mulheres?

Quando respondemos com força e personalidade somos acusadas de masculinizadas. Quando não agimos, somos acusadas de passivas e por isso temos o que merecemos. Quando somos violentadas, nos culpam porque estávamos no local errado na hora errada, com a roupa errada, ou tendo o comportamento errado. Quando as mulheres são prostituídas são acusadas de vagabundas, enquanto aos homens outras oportunidades são garantidas. Procuram nos enfraquecer, procuram assegurar que nunca sejamos autoconfiantes suficientes para desafiarmos a normatividade patriarcal. Nossas conquistas são ignoradas, nossa herstória é abafada.Vivemos num mundo onde os homens são os protagonistas das ciências, da política, das religiões, das filosofias… e quando mulheres conseguem feitos são muitas vezes esquecidas.

Somos educadas como inferiores, como pessoas que não tem o mesmo valor que os homens tem na sociedade, somos educadas a sermos passivas e obedientes.

E somos ensinadas também a negar o patriarcado. Obviamente. Porque reconhecer o patriarcado é perigoso para a ordem e para a manutenção do mesmo.

Quando percebemos nossa situação procuram nos desmotivar de nossa “rebeldia” dizendo que somos superiores, afinal somos mais sensíveis e mais delicadas, características tão sublimes que nem precisamos afinal sermos agentes de nossos processos.

Somos objetificadas, hipersexualizadas, erotizadas para o bel prazer do homem, mas agora de forma ardil descobriram que é só dizer que somos objeto do nosso próprio desejo para nos manterem bibelôs.

Então priorizar que as mulheres perpetuam o patriarcado, sem enxergar que somos desfavorecidas pelo mesmo, é injusto. Sim, as mulheres também perpetuam o patriarcado, não estou ignorando isso, mas este não é argumento para negar o patriarcado, antes pelo contrário é argumento que só demonstra o machismo como hegemonia. Além do que ao identificar este tipo de padrão de comportamento em mulheres está se admitindo que o patriarcado existe. É bem contraditório dizer que o patriarcado não existe afinal as mulheres reproduzem o patriarcado. Hã?

Acusar as mulheres de darem educação machista é distorcer a realidade para nos culpabilizar mais uma vez. As mulheres são as culpadas pela educação das filhas e filhos? Pois se perguntaram justamente, por que são as mulheres as responsáveis por isso? Não seria pela divisão de papéis imposta pelo patriarcado, e que à mulher fica a responsabilidade de criar filhas e filhos, sendo muitas das vezes as únicas responsáveis desta tarefa? Esta é uma questão anterior à maneira de educar – a de com quem fica a responsabilidade. A educação machista é parte da sociedade patriarcal, e as mulheres que dão educação machista não estão fazendo isso sozinhas, estão fazendo o “seu papel” nesta sociedade. E já respondendo a um possível argumento de que “mas então isso acontece também com os homens, eles estão apenas fazendo o papel que lhes foi imposto!” Sim, isso também acontece com os homens, a diferença é que o poder está com eles e são eles os privilegiados pelo patriarcado, quer gostem ou não. E são os homens por deterem poderes que impõem privilégios a seu favor.

É por isso que o feminismo existe.

enilador

Cenas Ativistas Não São Espaços Seguros Para Mulheres: Sobre o Abuso de Mulheres Ativistas por Homens Ativistas

Por Tamara K. Nopper

Como uma mulher que sofreu abuso físico e emocional cometido por homens, alguns com os quais eu tive longos relacionamentos, é sempre difícil ficar sabendo que outras mulheres ativistas estão sofrendo abuso por homens ativistas.

As questões interrelacionadas do sexismo, misoginia e homofobia em círculos ativistas são excessivas, e não é surpreendente que mulheres sejam abusadas física e emocionalmente por homens ativistas com os quais elas trabalham em vários projetos.

Eu não estou falando abstratamente aqui. Na verdade, eu sei de vários relacionamentos entre homens e mulheres ativistas nos quais as últimas são abusadas se não fisicamente, emocionalmente. Por exemplo, há muito tempo uma amiga minha me mostrou ferimentos em seu braço que ela me disse que foram causados por outro homem ativista. Essa mulher certamente luta emocionalmente, o que é de alguma forma esperado dado que ela sofreu abuso físico. O que era ainda mais desolador de se ver era como esta mulher era evitada nos círculos ativistas quando ela tentava falar sobre seu abuso ou quando se referia a ele. Alguns disseram a ela para ultrapassá-lo, ou para se focar em “verdadeiros” homens babacas tais como proeminentes figuras políticas. Outros disseram a ela para não deixar “problemas pessoais” interferirem na “realização do trabalho”.

Eu lutei com a recuperação de minha amiga também. Como sobrevivente de abuso, era difícil encontrar uma mulher que de certa forma era um espectro de mim. Eu procurava ela e ela volta e meia me falava sobre outra briga que ela e seu namorado haviam tido. Eu me vi evitando essa mulher porque, francamente, era difícil olhar para uma mulher que me recordava muito de quem eu era há não muito tempo: uma pessoa assustada, envergonhada e desesperada que balbuciaria para qualquer pessoa disposta a ouví-la sobre o que estava acontecendo com ela. Em outras palavras, eu, como essa mulher, tinha passado pelo desespero de tentar sair de uma relação abusiva e necessitando finalmente contar às pessoas o que estava acontecendo comigo. E assim como essa mulher era tratada, a maioria das pessoas, até mesmo aqueles que eu chamava de amigos, se esquivavam de me escutar porque eles não queriam ser incomodados ou estavam lutando com suas próprias lutas emocionais.

A vergonha associada em contar às pessoas que você tem foi abusada, e como eu, ficado numa relação abusiva, é agravada pelas respostas que você obtém das pessoas. Ao invés de se solidarizarem, muitas pessoas ficaram decepcionadas comigo. Muitas vezes as pessoas me disseram que elas estavam “surpresas” em descobrir que eu havia “me envolvido com esta merda” porque diferentemente de “mulheres fracas”, eu era uma mulher “forte” e “política”. Essa resposta é completamente misógina porque ela nega quão dominante é o patriarcado e o ódio às mulheres e ao “feminino”, e ao invés disso, tenta colocar a culpa nas mulheres. Isto é, nós ignoramos que mulheres estão sendo abusadas por homens e, ao invés disso, enfatizamos o caráter das mulheres como a razão definitiva pela qual algumas são abusadas enquanto outras não “se envolvem com esta merda”.

É impossível não pensar que outras mulheres ativistas que têm sido abusadas, quer seja por homens ativistas ou não, também enfrentam dificuldades semelhantes recuperando-se do abuso. Independentemente da política de alguém, as mulheres podem ser e são abusadas. Qualquer um que se recuse a acreditar nisso, ou simplesmente não escuta às mulheres, ou não pensa sobre o que as mulheres normalmente passam. E isso só acontece por hostilidade das pessoas em reconhecer quão pervasivos e normalizados são o patriarcado e a misoginia – tanto fora quanto dentro de círculos ativistas.

Mais, várias de nós queremos acreditar que homens ativistas são diferentes de nossos pais, irmãos, antigos namorados e machos estranhos com os quais nos confrontamos em nossas rotinas diárias. Nós queremos ter alguma fé que o cara que escreve um ensaio sobre sexismo e o posta em seu website não o está escrevendo somente para fazer uma boa imagem de sí mesmo, obter sexo, ou encobrir algumas de suas perigosas práticas com relação às mulheres. Nós queremos acreditar que as mulheres estão sendo respeitadas por suas habilidades, energia e comprometimento político e não estão sendo solicitadas a fazer algo porque elas são vistas como “exploráveis” e “abusáveis” por homens ativistas.

Nós queremos acreditar que, se um homem ativista fez um avanço indevido ou fisicamente/sexualmente agrediu uma mulher ativista, isso seria prontamente e atenciosamente lidado por organizações e comunidades políticas – e com a contribuição da vítima. Nós queremos acreditar que grupos ativistas não são tão facilmente seduzidos pelas habilidades ou pelo “poder nomeado” que um ativista masculino traz a um projeto ao ponto de estarem dispostos a deixar uma mulher ser abusada ou não se importarem com sua recuperação. E nós gostaríamos de pensar que “a segurança” em círculos ativistas não somente foca nas questões de listas de grupos na internet ou em usar nomes falsos em assembléias, mas que de fato inclui pensar proativamente sobre como lidar com a misoginia, o patriarcado e o heterossexismo tanto fora quanto dentro de cenários ativistas.

Mas todos esses desejos, todos esses sonhos obviamente não tendem a ser abordados. Em vez disso, eu sei de homens ativistas que trollam espaços políticos como predadores procurando por mulheres que eles possam manipular politicamente ou “transar sem ter que dar explicação”. Como padres abusivos, alguns desses homens literalmente movem-se de cidade em cidade procurando se divertir e encontrar carne fresca no meio daqueles que não são familiares com sua reputação. E eu tenho visto mulheres ativistas se dedicarem a homens ativistas (que frequentemente ficam com o crédito) na esperança de que o homem ativista abusivo irá finalmente se dar conta disso ou a apreciará enquanto ser humano.

Enquanto o romance entre ativistas é aprazível, eu acho nojento como homens ativistas usam o romance para controlar as mulheres politicamente e manter as mulheres emocionalmente comprometidas em ajudar esses homens politicamente, mesmo quando essas políticas são piegas ou problemáticas. Ou, em alguns casos, homens ativistas se envolvem com política para encontrar mulheres que eles possam envolver em relações abusivas e de controle.

E dado que o abuso traz à tona o pior da vítima, eu tenho visto que mulheres interagem com outras ativistas (particularmente mulheres) de maneiras que elas normalmente não fariam se elas não estivessem sendo politicamente e emocionalmente manipuladas por homens. Por exemplo, eu sei de mulheres ativistas abusadas que têm espalhado rumores sobre outras mulheres ativistas ou têm-se envolvido em brigas políticas entre seu namorado e outros ativistas.

O que é assustador é que eu sei de ativistas homens que estavam abusando e manipulando de mulheres ativistas ao mesmo tempo que escreviam ensaios sobre sexismo ou sobre competição entre mulheres. Às vezes o homem ativista irá redigir o ensaio com sua amiga ativista de forma a obter mais legitimidade. Eu sei de homens ativistas que numa hora citam Bell Hooks, Gloria Anzaldúa ou outras escritoras feministas e noutra estão perseguindo ou espalhando mentiras e fofocas sobre uma amiga ativista.E de homens ativistas que irão ensinar mulheres a serem menos competitivas com outras mulheres para dissimular seu comportamento abusivo e manipulador.

O que é mais desolador é o apoio que homens ativistas abusivos encontram de outros/as ativistas, homens ou mulheres, mas mais habitualmente de outros homens.As mulheres ativistas não só têm de confrontar e lidar com seu agressor em círculos ativistas, mas com uma comunidade política que se designa comprometida mas que no final das contas não dá importância alguma sobre a segurança emocional e física da vítima. Em muitas ocasiões eu tenho ouvido as histórias das mulheres sobre abuso serem recontadas e reformuladas por homens ativistas de uma maneira hostil e sexista. E quando eles remodelam essa história, eles geralmente o fazem naquela voz, aquela voz falsa, acusatória e zombeteira.

Por exemplo, quando eu estava dividindo com um homem ativista minhas preocupações sobre como uma mulher ativista estava sendo tratada por um homem ativista que mantinha uma posição proeminente em um grupo político, o homem “ouvindo” a minha história disse naquela voz “Oh, ela só está provavelmente brava porque ele começou a namorar outra pessoa” e passou a tirar sarro dela. Ele continuou a me dizer que, enquanto ele “reconhecia” que o homem estava errado, que cabe a mulher impor-se ao homem se ela quer que o tratamento pare.

Infelizmente essa característica de misoginia deste homem disfarçada como homem feminista é muito comum em círculos ativistas dado que muitos homens em geral acreditam que mulheres são abusadas porque elas são fracas ou que no fundo querem ter relacionamentos com homens abusivos. Mais, os comentários deste homem revelaram uma atitude que acredita que se mulheres ativistas têm problemas com homens ativistas, elas “denunciam o abuso” para encobrir desejos sexuais ocultos e raiva por terem sido rejeitadas por homens que “não irão comê-las”.

Eu acho repulsivo que a segurança física e emocional de mulheres seja de pouca preocupação para homens ativistas em geral. Enquanto homens ativistas irão falar da boca para fora sobre como eles precisam ficar com suas bocas caladas quando as mulheres estão falando ou como espaços somente de mulheres são necessários, muito frequentemente pessoas “críticas” e “políticas” não querem confrontar o fato de que as mulheres estão sendo abusadas por homens ativistas em nossos círculos.

Quando essa questão é “abordada”, mais frequentemente do que não, a atenção será dada a “batalhar com” o homem (ou seja, deixando-o permanecer e talvez só fofocando sobre ele). Eu tenho visto algumas situações onde homens abusivos são adotados, por assim dizer, por outros ativistas, que vêem a reabilitação do homem como parte de seus projetos mas que praticamente não pensam sobre o que isso significa para as mulheres que estão tentando se recuperar. Em alguns casos, o homem ativista abusador foi adotado enquanto a mulher foi rejeitada como “instável”, “louca” ou “muito sentimental”. Basicamente, esses grupos iriam antes ajudar um cara frio e calculista que pode “mantê-los unidos” enquanto ele abusa de mulheres ao invés de lidar com a realidade de que o abuso pode contribuir para as dificuldades emocionais e sociais das vítimas enquanto elas se esforçam para se tornarem sobreviventes.

E em alguns casos, mulheres ativistas irão evitar de ir à polícia porque elas criticam o complexo industrial penitenciário, mas também porque outros homens ativistas irão dizer-lhes que elas estão “contribuindo para o problema” ao “conduzirem o Estado para dentro”. Mas na maioria dos casos, o homem ativista não é castigado pelos problemas que ele criou. Deste modo, as mulheres estão presas tendo que descobrir como garantir sua segurança sem serem rotuladas como “traidoras” por seus colegas ativistas.

Enquanto acredito fortemente que nós devemos tentar trabalhar pela reabilitação ao invés da punição em si, eu estou dolorosamente consciente que nós frequentemente damos mais ênfase em ajudar homens a permanecerem em círculos ativistas do que apoiar mulheres através de suas recuperações, o que pode envolver a necessidade de ter o homem removido de nossos grupos políticos. Basicamente, o grupo irá normalmente determinar que o ativista abusador deve ser deixado a se reabilitar sem perguntar à mulher o que ela necessita do grupo para recuperar-se e ser apoiada em seu processo. Eu sei de vários exemplos em que mulheres foram forçadas a tolerar a indisposição do grupo ao se referirem ao abuso. Algumas irão permanecer envolvidas em organizações porque elas acreditam na causa e porque francamente, há poucos espaços para ir, se houverem, onde ela não sofra o risco de ser abusada por outro ativista ou que o abuso que sofreu não seja desconsiderado. Outras irão simplesmente deixar o grupo.

Eu tenho visto como essas mulheres são tratadas por outros/as ativistas – homens e mulheres – que tratam mulheres friamente ou fofocam que elas são egoístas ou traidoras por deixarem o lado pessoal interferir na “causa”. Ou quando mulheres ativistas que foram abusadas são “apoiadas”, é usualmente porque ela é considerada “eficiente” ou porque desconsiderar o abuso será “ruim para o grupo”. Nesse sentido, a saúde física, emocional e espiritual da mulher é ainda sacrificada. Em vez disso, o abuso sofrido deve ser levado em conta porque se ele não for, ela pode “parar de contribuir com o grupo” ou pode haver muita tensão no mesmo para que ele funcione de forma eficiente. De qualquer forma, a segurança das mulheres não é vista como digna de preocupação em si mesma.

Em geral, cenários ativistas não são um espaço seguro para mulheres porque nele circulam homens misóginos e abusivos. Além disso, muitos desses abusadores usam a linguagem, ferramentas de ativismo e apoio de outros ativistas como meio de abusar de mulheres e esconder seus comportamentos. E infelizmente, em muitos círculos políticos, independentemente de quanto nós falemos sobre o patriarcado ou misoginia, mulheres são sacrificadas de forma a manter a “causa” ou salvar a organização. Talvez seja tempo de nós realmente nos importarmos com o fato de que as mulheres ativistas estão vulneráveis a serem manipuladas e abusadas por homens ativistas e considerar que abordar isso proativamente é uma parte integral da “causa” pela qual ativistas devem lutar.

 

Autonomia no Transporte – 17.08.13

Hoje mais um sábado sobre autonomia no Espaço Deriva. Estará rolando um bate papo sobre autonomia no transporte.

Alguns assuntos a serem abordados:

– Alternativas de mobilidade

– Bicicleta : autonomia e independência; interação com a cidade e as pessoas; impacto no meio ambiente.

– Resistência Política

– Carrocentrismo

– Marginalização da bicicleta

– Bicicleta e divisão de classes

– A bicicleta como ferramenta feminista:

* Independência

* Segurança

* Capacitação

* Mulher no século XIX, utilizando a bicicleta,  saindo da esfera doméstica e privada para ir as ruas e deixar de ser o apêndice do homem. Luta das mulheres contestada pela sociedade onde eram também ridicularizadas por serem consideradas masculinizadas. Questionamento da feminilidade, das mulheres em grupos, da lesbianidade. Vestimenta desapropriada para mulheres, dificultando emancipação.

* Liberdade

* Auto- confiança

Hoje, 17 de agosto às 17h no espaço Deriva que fica na Ramiro Barcelos 1853. [POA]

 

Feminismo Autônomo- Reflexões hoje, as 17h!

Hoje as 17h estará acontecendo o debate sobre autonomia no feminismo, fazendo parte do Ciclo da Autonomia no Espaço Deriva.

Algumas das questões que estarão sendo trazidas ao debate são:

-Perspectiva autonomista do feminismo em contraponto ao feminismo institucional.

-Feminismo e Anarquismo:

*como traçar objetivos comuns para ambas as lutas.
*Resistência às ideias feministas no meio anarquista.
*Discriminação e Violência em espaços libertários.

-Necessidade de espaços feministas exclusivos:  resistência que encontramos para nos organizarmos neste sentido e suas razões.

-Apropriação do feminismo por homens:  protagonismo de homens no feminismo e processos colonizadores.

-Autonomia sobre nossos corpos: aborto e propriedade.

Além destes tópicos o debate é aberto a todos coletivos e mulheres que quiserem trazer suas propostas para construirmos juntas esta parte do ciclo.

O Espaço Deriva fica na Rua Ramiro Barcelos 1853.

 

Solidariedade e Cuidado em Espaços Feministas

Espaços feministas existem pela necessidade de criarmos esses espaços de luta e resistência. Espaços feministas são para nos fortalecermos, objetivando construirmos novas realidades individuais e coletivas, para nos apoiarmos e sermos solidárias umas com as outras, para identificarmos padrões que nos ajudam a perceber o inimigo, a causa, e para buscarmos soluções ou apenas resistirmos – buscas que temos por existir uma identificação: temos tratamento e oportunidades diferenciados devido ao machismo, a misoginia e as normas do patriarcado. Ainda que mulheres, lésbicas e outras identidades tenham suas especificidades e com isso opressões específicas, todas estas opressões são fruto de misoginia e crença na inferioridade de “ser mulher”, ou ainda, que mulher se deveria ser aos olhos da sociedade patriarcal.

Em espaços feministas você vai encontrar mulheres com traumas, mulheres ditas fortes e mulheres ditas fracas, mulheres em diferentes momentos de suas vidas, insubmissas, submissas ou com diferentes graus de submissão, adesão ao patriarcado ou a padrões estipulados pela sociedade, e mulheres sobreviventes.

Nós então não vamos encontrar mulheres iguais a nós, vamos lidar com diferenças, com ideias e objetivos nem sempre iguais.

É importante partindo disso, sabermos que o debate está aberto, de que temos diferenças. Ok.

Mas é interessante termos como princípios pelo menos duas coisas: a solidariedade e o cuidado com nossas companheiras e amigas. Obviamente não temos que ser solidárias com atos autoritários por exemplo, ou com qualquer atitude que qualquer mulher tenha só pelo fato de ela ser mulher. Seria mais um ponto de partida na nossa interação com as outras, mais uma maneira de encarar a si mesma e a outra, e uma tentativa de se opor à competitividade estimulada entre mulheres.

As vezes podemos estar muito focadas num problema específico em determinado momento para percebermos o nosso entorno -como a vida está para essas mulheres que estão aqui comigo agora-, e como está também para outras mulheres mais distantes. Mas é importante adotarmos a prática de prestarmos atenção no que outras estão trazendo e passando, e até, porque não, fazermos um esforço em compreender através do silêncio, que pode bem ser um indício de desconforto e medo, e de dinâmicas hierárquicas num espaço que precisa não gerar mais medos e domínio.

Eu tenho vivenciado que em alguns espaços, algumas atitudes e conceitos contrapõem a esta solidariedade e este cuidado fundamentais para o bem-estar de todas.

Por mais que estejamos abertas as discussões, não podemos descartar que esta “abertura” pode ser traumática, e nem todas as teses podem ser abertamente discutidas sem que se tenha cuidado, para evitarmos de machucar outras mulheres. Por exemplo, algumas teorias sobre o patriarcado, sobre o estupro, submissão e vitimização me parecem bem conflituosas para que se exponham desconsiderando que naquele espaço existem pessoas que foram estupradas, foram ou ainda são submissas, para citar algumas realidades. Geralmente com relação a submissão podemos ter uma opinião muito formada e acreditar que só a outra está sendo submissa e desta forma não enxergar nossas próprias atitudes ou situações. Eu percebi muitas vezes que o descuido, acaba por culpabilizar a vítima. E apesar de que o feminismo tem como fundamento nunca culpabilizar nenhuma vítima de estupro, quero dizer, a gente pensa que isso é consenso básico no “mundo” feminista, algumas teorias compartilhadas acabam por culpabilizar. O próprio termo estupro vem sendo desconstruído e banalizado, e tem pessoas que falam em estupro verbal por exemplo, que tentam comparar situações totalmente diferentes de estupros com o estupro. Não é solidário colocar tudo no mesmo saco, e pode ser altamente ofensivo, além de desconsiderar sofrimentos e traumas profundos. E por que haveríamos de ignorar que estes espaços agregam mulheres com traumas e dificuldades? Obviamente que não estou sugerindo que não devemos debater questões que se apresentam, mas que estejamos atentas para não machucarmos umas às outras.

Desde as formas como nos organizarmos, é fundamental que não exerçamos controle e centralidade, mas isso eu percebo estar mais em andamento, mesmo que na prática nem sempre funcione muito bem. O que nos mostra que temos muito por fazer, lembrando que para nossa autonomia é importante que geremos nossas próprias propostas, procurando criar as realidades que queremos para todas nós.

Outra coisa importante de se considerar, é que não podemos também exigir umas das outras, que sejam tomadas atitudes que julgamos mais importantes, sem levar em conta que a outra pode não estar preparada para tomar tais atitudes. O que podemos fazer é contribuir mutuamente nesta “preparação”, para que cada uma se desvincule o máximo que conseguir de suas dificuldades, daquilo que cada uma quer se desvincular. A interação entre nós tem que ser no sentido de nos libertar e de apoio mutuo, e não de reproduzirmos a opressão. Muitas vezes podemos não perceber o que estamos fazendo e estar “contribuindo” para silenciarmos a outra e deixá-la ainda mais insegura.

Penso que uma tentativa de solucionarmos problemas como estes, é de buscarmos desenvolver práticas de apoio quando nos propormos a construir e nos envolvermos em um espaço feminista. Não este cuidado paternalista atrelado ao conceito de fraqueza das mulheres, mas o cuidado para não causarmos mais danos. É essencial que espaços feministas sejam também espaços de apoio e confiança, além de serem de luta e resistência.

Pensemos enquanto feministas nas consequências de que nossas palavras e atos tenham em outras mulheres. Pensemos enquanto feministas em nos colocarmos no lugar da outra com solidariedade, não caridade.

 

O Machismo Também Saiu às Ruas

Nos protestos pelo Brasil pudemos observar que o machismo também “saiu às ruas”. É importante ressaltar isso, principalmente porque o machismo é sempre abrandado, quando não negado, e historicamente ignorado devido a “coisas mais importantes para se resolver ou para se focar”.

Desta vez porém, referente aos protestos, observamos e denunciamos o sentimento ufanista, a necessidade desesperada de caracterizar o movimento como pacifista, a violência perpetuada contra pixadores, a perseguição de manifestantes alcunhados como vândalos, a tentativa de cooptação da direita, a infiltração de neonazis e da própria polícia, entre outras questões.

Nada menos do que imprescindível nos atermos sobre questões que sim, não tenham impedido os protestos de continuarem, mas que incomodaram uma grande parcela de manifestantes, principalmente mulheres e que podem sim terem impedido algumas de continuarem participando. Geralmente em eventos públicos, com aglomeração de pessoas, a gente vê manifestações de racismo, machismo e heterossexismo, e normalmente as pessoas ficam caladas. Tais preconceitos não acontecem apenas em eventos e aglomerações obviamente, diariamente nos deparamos com situações machistas, racistas e heterossexistas e nem sempre temos na ponta da língua uma resposta, ou não dispomos de energia, ou “presença de espírito” para respondermos, ou simplesmente percebemos outras problemáticas implícitas numa possível explicação. Além do que, estes preconceitos são reproduzidos de forma sistemática e normalizada, o que dificulta tentativas de diálogo que são tratadas com hostilidade, descartando que hostil é a manifestação do preconceito em primeiro lugar.

De certa forma poderia ser mais fácil confrontar preconceitos em situações similares a protestos como este, onde é trazido à tona as desigualdades, já que existe um terreno propício ao questionamento. Mas parece não ser tão fácil assim.

Os protestos estão dizendo que não aguentamos mais as desigualdades sociais e de classes, e que estamos dispostas a lutar por demandas que nos são importantes e necessárias para nossas vidas e para a sobrevivência de vários grupos. Desta forma precisamos dar atenção para não oprimirmos outros grupos que sofrem outras opressões.

Durante estes protestos surgiram cartazes e gritos machistas, como os referentes a Dilma não enquanto presidente, mas enquanto mulher, como no cartaz que dizia: “de quantas mulheres precisa pro Brasil afundar? Di(u)ma.” Piadas como esta, estão carregadas de misoginia mas são encaradas com naturalidade, e fazem “todo mundo” rir. Exceto a quem ela atinge, como são as piadas de negros e de “viado” ou “sapatão” em que as pessoas dizem “não sou racista/homofóbico mas escuta essa!”

Ouvi em diferentes momentos mulheres serem chamadas de vadia no meio dos protestos, por não corresponderem ao esperado delas. Argumentei com estas pessoas que não fazia sentido elas se referirem assim àquelas mulheres e recebi de volta comentários de desprezo também por eu ser mulher.

É importante combatermos as opressões, incorporando como ação importante nas nossas lutas e no nosso cotidiano, até que o machismo, a misoginia e o preconceito encontrem resistência, e passem a não ser mais uma normalidade.

 

Exibição do filme Moolaadé – 18.jun

Moolaadé ( proteção mágica) é um filme  de  2004 dirigido por Ousmane Sembène. O filme trata sobre Mutilação Genital Feminina (MGF), uma prática comum em muitos países da África e Ásia. Um tipo de MGF envolve cortar e  fechar a vagina deixando uma abertura apenas para saída de urina e sangue. A mutilação não acaba na infância, pois no dia do casamento as mulheres sofrem nova cirurgia dolorosa, onde cortam o tecido costurado para possibilitar o coito. Os familiares dizem que este “selo” é a garantia de que suas filhas não façam sexo antes do casamento e protege a honra da família. Além da infibulação (nome dado a este tipo de mutilação), também é comum a prática da remoção do clitóris para impedir o prazer sexual. O filme tem uma postura firme contra estas práticas contando a história de uma mulher de uma vila em Burkina Faso, que usa moolaadé para proteger um grupo de meninas. Ela confronta os moradores da vila que acreditam que a MGF é uma “purificação”.

A exibição do filme é às 19h nesta terça feira 18 de junho no Espaço Deriva, que fica na rua Ramiro Barcelos, 1853.

Organização: Ação Antisexista

 

 

Porque a crítica à Marcha das Vadias não é puritanismo

A apropriação do termo Vadia – utilizada pela Marcha das Vadias – é criticada como estratégia feminista por muitas de nós, provocando um longo debate. Eu compartilho da opinião de que a apropriação do termo não trará mudanças, que pelo contrário o termo Vadia contribui para nos objetificar e subjugar, que não ajuda como estratégia contra o estupro, e que ignora a realidade de muitas de nós, principalmente das mulheres e crianças prostituídas, embora pareça se solidarizar.

Neste debate surgiu o argumento de que seria por conservadorismo e por uma sexualidade reprimida que se critica a apropriação do termo. Em contraponto, se passou a assumir como uma espécie de “vantagem” inerente às pessoas que são a favor da apropriação da palavra vadia, como sendo bem resolvidas* e/ou sexualmente ativas.

A primeira coisa que me salta aos olhos é que sexualidade reprimida não é um defeito, é um problema, e como tal não serve como acusação nem ofensa. Dizer que as pessoas são muito reprimidas como crítica a este comportamento, é culpá-las pelo que lhes foi imposto. Já, alertar para isso e incentivar que as pessoas lutem contra esta repressão é algo construtivo. Além disso, não são todas as pessoas reprimidas que são como os estereótipos que se tem de pessoas quadradas e conservadoras. Não são também todas as pessoas que não tem sexualidade ativa que são de fato reprimidas, elas podem ter outros motivos para não serem ativas, e nem é verdade que as pessoas ativas são necessariamente felizes sexualmente.

Este tipo de afirmação parte do ponto de que sexo é algo bom sempre. Sexo nem sempre é bom, porque depende da situação, do momento, com quem, e do prazer. É uma afirmação também que ignora completamente as pessoas assexuais – que não sentem desejo sexual. Pode ser difícil da gente pensar assim num primeiro momento, já que existe uma forte repressão sexual e que somos impelidas a pensar que a luta por uma sexualidade livre significa fazermos sexo quando bem entendermos com quem bem quisermos, quando na verdade sexualidade livre significa além disso é claro, que nossas opções sexuais não sejam motivos para sermos perseguidas, e tampouco que as pessoas sejam perseguidas ou inferiorizadas quando não são sexualmente ativas, por opção ou não.

Apropriar-se do termo vadia não é sinônimo de uma sexualidade bem resolvida. Vai muito além da sexualidade de uma pessoa (embora possa fazer parte) as opções e táticas políticas que ela toma para si. Eu diria que optar por não usar o termo vadia tem muito mais a ver com uma preocupação quanto a sexualidade mal resolvida da sociedade e todas as implicações disso (estupro, controle, objetificação…) do que com a própria sexualidade (ainda que esta seja também mal resolvida). E embora uma mulher possa adotar o termo vadia como tática política, não significa que uma mulher que se apropria do termo vadia, se torna automaticamente politizada e liberta.

Ir para a Marcha usando “roupas de vadia” e se apropriar do termo vadia, passaram a ser considerados símbolos de autonomia e de se estar bem resolvida, naturalmente que ao criticar  essas formas de ação ficamos vulneráveis para sermos consideradas mulheres fechadas, conservadoras. É bem fácil de entender o receio que muitas podem sentir em questionar a Marcha, já que nos exclui automaticamente do círculo de vanguarda.

Não podemos ignorar que existe uma pressão também na mulher para provar sua feminilidade, sexualidade e sua capacidade de fêmea. A nossa sexualidade é controlada através de repressão e também de cobranças das nossas “capacidades e poderes” sexuais. É consenso de que o termo vadia é usado quando querem nos xingar, mas não é também usado para designar mulher boa de cama no imaginário machista? Estaríamos nós inconscientemente atreladas á opinião dos outros quanto às nossas capacidades de sedução, porque de certa forma queremos ser aceitas, estar incluídas, mesmo que numa sociedade que nos machuca? Não estou dizendo que este sentimento é o que leva à existência da Marcha, longe disso, estou apenas colocando que este sentimento pode estar presente dificultando desassociar sexualidade com participação na Marcha (que não se trata de sexualidade mas de estupro), podendo também gerar constrangimento para quem a critica, por ter sua sexualidade questionada.

Assim as mulheres questionadoras da simbologia adotada pela Marcha das Vadias são taxadas de conservadoras e de “mal resolvidas”. Pensem bem, isso não é muito diferente de dizer que feminista é mal amada,que falta um homem no seu corpo.

*O termo bem resolvida(o) também está atrelado as especificidades no contexto patriarcal, nem sempre significa algo positivo, as vezes parece até dar uma idéia contrária, de conformidade. Ademais é bastante difícil identificar conceitos como esse, numa sociedade patriarcal onde a sexualidade é um tabu. Isso passa também pela questão do consentimento, pois uma pessoa bem resolvida pode não estar atenta aos desejos da sua parceira (o) e numa outra escala, às vontades das pessoas a quem ela tenta suas investidas.

enila dor.
Outubro 2012

-Este texto  também faz parte da compilação Considerações sobre a Marcha das Vadias e Outros Textos, que você pode ler todo aqui na sessão de zines.